O Cortiço: Quando o Lugar Decide Quem Você Vai Ser

Em O Cortiço, o protagonista é um lugar. Entenda como Aluísio Azevedo usa o determinismo para mostrar o meio moldando as pessoas, a ascensão de João Romão às custas de Bertoleza e o final irônico que critica a elite do fim da escravidão.

Transcrição do episódio

Vamos falar de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, publicado em mil oitocentos e noventa. É o romance mais famoso do Naturalismo brasileiro e um dos livros que mais caem no ENEM e nos vestibulares.

E eu já ouvi dizer que o personagem principal nem é uma pessoa. É verdade?

É a primeira coisa que a prova costuma perguntar. O protagonista é o próprio cortiço, a estalagem São Romão, um conjunto de casinhas no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro.

Mas como um lugar pode ser protagonista? Lugar não decide nada.

Aí está a provocação do livro. Para o Naturalismo, o lugar decide quase tudo. O cortiço é descrito como um organismo vivo: ele acorda, cresce, fervilha, adoece.

Então o narrador trata o cortiço como se fosse um bicho.

E trata as pessoas também como bichos. É a famosa zoomorfização: os moradores aparecem como formigas, como larvas que brotam da lama.

Isso parece meio cruel com quem mora ali.

E é, de propósito. O Naturalismo queria olhar para a sociedade como um cientista olha para um laboratório. A ideia central é o determinismo: o ser humano seria produto do meio, da raça e do momento histórico.

Raça? Isso soa bem problemático hoje.

E é. Eram teorias científicas da época, que hoje sabemos que não se sustentam e que carregam muito preconceito. Para a prova, o importante é reconhecer que o romance foi escrito sob essas ideias, e saber criticá-las.

Tá. Mas um cortiço não aparece do nada. Quem construiu esse lugar?

João Romão, um imigrante português. Ele começa como empregado de uma venda, economiza cada tostão e acaba dono da venda.

O clássico imigrante que venceu pelo trabalho.

É o que parece no começo. Só que o livro mostra como ele venceu. Ele dorme em cima do balcão, come o resto dos fregueses e não gasta com nada. E rouba material de construção à noite para erguer as casinhas.

Então o cortiço nasce de economia e de pequenos furtos.

E de exploração. E aqui entra a personagem que, para mim, é o coração do livro: Bertoleza.

Quem era ela?

Uma mulher escravizada, quitandeira, que trabalhava para pagar um valor por dia ao seu senhor. Ela se junta a João Romão, confia nele as economias dela e passa a trabalhar para ele de sol a sol.

Mas ela não era escravizada? Como podia viver com ele?

João Romão diz que vai comprar a liberdade dela. Mostra uma carta de alforria, os dois até brindam com vinho do Porto.

Até aí parece uma boa ação.

Só que a carta era falsa. O próprio João Romão escreveu, e até colou um selo já usado para parecer oficial.

Então ela continuou escravizada sem saber.

Sem saber. E trabalhando de graça para ele, como cozinheira, caixeira, criada e companheira, enquanto ele enriquecia.

Isso muda completamente a história do imigrante que venceu pelo trabalho. O trabalho era dela.

Exatamente essa a leitura. A fortuna de João Romão foi construída em boa parte em cima do trabalho de uma mulher que ele enganou.

E ele tinha algum rival? Porque um personagem assim pede um rival.

Tem. Do lado do cortiço mora o Miranda, outro comerciante português, só que rico, com um sobrado. Os dois brigam desde o começo por um pedaço de terreno nos fundos.

Briga de vizinho.

Que vira briga de classe. O Miranda despreza o cortiço e a gentalha. E João Romão, que no início despreza o Miranda, começa a invejá-lo.

Invejar o quê, se ele já tinha dinheiro?

O prestígio. O Miranda vira barão, o Barão do Freixal. E quando João Romão vê a festa no sobrado, percebe que dinheiro guardado não basta. Ele quer ser respeitado.

Então o personagem muda de objetivo. Antes era só juntar dinheiro, agora é subir socialmente.

E isso tem um preço. Para entrar na alta sociedade, ele planeja casar com a filha do Miranda, a Zulmira.

Mas ele já vivia com a Bertoleza.

E é aí que a Bertoleza vira um problema para ele. Guarda esse conflito, que ele volta no fim.

Tá guardado. Mas me fala da tal ideia de que o meio transforma as pessoas. Tem algum exemplo claro?

O exemplo mais famoso é o Jerônimo. Ele chega ao cortiço como um português sério, trabalhador, que cuida da pedreira de João Romão. Casado com a Piedade, vive de forma regrada, economiza, toca fado.

O oposto do clima do cortiço, então.

O oposto. Até que ele vê a Rita Baiana dançar.

A Rita é a mulher mais animada do cortiço, imagino.

É a personagem mais solar do livro: alegre, livre, dona de si, a alma das festas. E o Jerônimo se apaixona por ela.

E isso muda ele?

Muda tudo. Ele troca o vinho pela cachaça, o fado pelo samba, a disciplina pela preguiça das tardes quentes. O narrador resume numa frase curta: "E Jerônimo abrasileirou-se."

Abrasileirou-se como se ser brasileiro fosse uma espécie de doença.

Essa é a crítica que os professores fazem hoje. O livro trata o clima tropical e a cultura brasileira como forças que amolecem o europeu. É o determinismo do meio na sua forma mais explícita, e também mais preconceituosa.

E o que acontece com a Piedade, a mulher dele?

É uma das partes mais tristes. O Jerônimo vai embora com a Rita, e a Piedade, abandonada, vai afundando aos poucos na bebida.

E a Rita não tinha ninguém antes do Jerônimo?

Tinha o Firmo, um capoeirista do cortiço. Os dois brigam por ela, e o Firmo fere o Jerônimo com uma navalha.

E o Jerônimo deixa por isso mesmo?

Não deixa. Quando se recupera, ele e dois companheiros esperam o Firmo à noite e o matam. Depois disso, ele vai viver com a Rita.

Então o português calmo do começo termina como alguém capaz de matar. O meio fez isso com ele, segundo o livro.

Segundo a lógica naturalista, sim. Ninguém ali é exatamente culpado ou inocente. Todos parecem empurrados por forças maiores.

Mas isso não tira a responsabilidade das pessoas? Fica fácil culpar o meio.

É uma ótima pergunta para uma redação ou uma questão discursiva. O Naturalismo foi muito criticado justamente por isso: ele explica tudo pelo ambiente e pela biologia e quase não deixa espaço para a escolha.

E tem outros exemplos de gente transformada pelo cortiço?

A Pombinha. Ela é a moça mais querida do cortiço, delicada, que escreve as cartas dos vizinhos analfabetos. Todo mundo espera que ela faça um bom casamento e saia dali.

E ela sai?

Casa, mas o casamento não dá certo. E ela acaba seguindo o caminho da Léonie, uma cortesã francesa rica que frequentava o cortiço.

A menina mais pura do lugar acaba indo para a vida que todo mundo condenava.

E o livro vai além. No fim, a Pombinha passa a ajudar a filha da Piedade, a Senhorinha, do mesmo jeito que a Léonie tinha ajudado ela. O narrador diz que a cadeia continuava.

Então a ideia é que o cortiço repete as histórias, geração depois de geração.

É isso. O meio não transforma só um indivíduo. Ele se reproduz.

E o cortiço, ele próprio, muda ao longo do livro?

Muda muito, e essa parte tem tudo a ver com o Brasil de hoje. Surge um cortiço rival na mesma rua, o Cabeça-de-Gato. Os moradores dos dois vivem em guerra.

Uma rivalidade de bairro, quase de torcida.

Quase isso. E no meio de uma dessas brigas o São Romão pega fogo. Quem provoca o incêndio é a Paula, uma moradora chamada de Bruxa, que já tinha tentado antes.

E o cortiço acaba?

Não. Aí vem o detalhe mais interessante. João Romão aproveita o incêndio para reconstruir tudo maior e mais bonito. O cortiço vira a Avenida São Romão.

Como uma reforma de valorização.

Exatamente. Os aluguéis sobem, passam a exigir fiador e recomendação. Os moradores mais pobres não conseguem pagar e vão para o Cabeça-de-Gato.

Então quem não cabia mais no lugar renovado foi empurrado para o cortiço pior.

E o narrador diz que o Cabeça-de-Gato vai ficando cada vez mais miserável, enquanto o São Romão se torna respeitável.

Isso tem nome hoje: gentrificação. O livro é de mil oitocentos e noventa e parece que fala de agora.

É uma ponte que o ENEM adora fazer, ligar a obra com questões urbanas atuais.

E a Piedade, nessa reforma?

É despejada da avenida e vai, com a filha, para o Cabeça-de-Gato.

Agora me conta o fim da Bertoleza. Você mandou guardar.

Lembra que João Romão quer casar com a Zulmira, a filha do Miranda?

Lembro. E que a Bertoleza era um problema.

Então. Com a ajuda do Botelho, um velho que vivia de favores na casa do Miranda, João Romão procura os herdeiros do antigo senhor da Bertoleza. E avisa onde ela está.

Ele denuncia a própria companheira?

Denuncia. Os herdeiros chegam com a polícia para levá-la de volta à escravidão. E só nesse momento ela entende tudo: a carta de alforria era mentira, e o homem para quem trabalhou a vida inteira a estava entregando.

Que horror.

E ela se recusa a voltar a ser escravizada. Diante dos policiais, ela tira a própria vida.

É o momento mais pesado do livro, imagino.

É. E logo em seguida vem a ironia mais amarga de toda a literatura brasileira.

Pior do que isso?

No mesmo instante, chega à porta uma comissão de abolicionistas. Eles vinham entregar a João Romão um diploma de sócio benemérito.

Espera. Homenageado pelos abolicionistas, no minuto em que acabou de devolver uma mulher à escravidão?

Exatamente. O homem que enganou e entregou a Bertoleza é celebrado como um benfeitor da causa da liberdade.

Então o livro está dizendo que a respeitabilidade da elite podia ser só fachada.

Essa é a leitura mais aceita. João Romão sobe na vida, vira quase um aristocrata, e tudo isso foi construído sobre a exploração e a traição.

E isso fecha com o começo. O imigrante que venceu pelo trabalho, na verdade, venceu pelo trabalho dos outros.

Fecha perfeitamente. Repara que o livro sai em mil oitocentos e noventa, dois anos depois da abolição. A crítica é direta: a escravidão tinha acabado no papel, mas quem enriqueceu com ela continuava por cima.

Agora, uma dúvida que sempre cai. Qual a diferença entre esse livro e o Realismo do Machado de Assis?

Boa comparação, porque os dois são da mesma época. O Realismo do Machado está mais preocupado com a cabeça das pessoas: a vaidade, a hipocrisia, o que elas pensam e escondem.

Como o Brás Cubas, que conta a vida dele com ironia depois de morto.

Isso. Já o Naturalismo do Aluísio está mais preocupado com o corpo e o ambiente. Os instintos, o calor, a fome, o dinheiro, o espaço apertado.

Então o Machado olha para dentro, e o Aluísio olha para fora.

É uma forma simples e boa de lembrar. E o Naturalismo ainda tem esse olhar de cientista, que observa as pessoas como casos a serem estudados.

E o narrador do Cortiço é em terceira pessoa?

Em terceira pessoa, que observa tudo de fora, como quem examina o cortiço por inteiro. Isso combina com a ideia de um protagonista coletivo.

Então, se cair uma questão perguntando quem é o protagonista, a resposta é o cortiço, um personagem coletivo.

E se perguntarem a característica naturalista mais marcante, a resposta passa pelo determinismo e pela zoomorfização.

Deixa eu juntar tudo. O Cortiço é de mil oitocentos e noventa, de Aluísio Azevedo, o principal romance naturalista brasileiro.

E o protagonista é o próprio cortiço, tratado como um organismo vivo, com moradores descritos como animais.

A ideia central é o determinismo: as pessoas seriam moldadas pelo meio, pela raça e pelo momento, uma visão da época que hoje se critica pelo preconceito.

O Jerônimo é o melhor exemplo: o português disciplinado que se abrasileira e muda por completo.

A Pombinha mostra o meio se repetindo de uma geração para outra.

João Romão sobe na vida explorando a Bertoleza, com uma carta de alforria falsa.

O incêndio vira oportunidade, e a Avenida São Romão expulsa os mais pobres para o Cabeça-de-Gato.

E o fim junta tudo numa ironia: Bertoleza morre para não voltar à escravidão, e no mesmo minuto João Romão recebe uma homenagem dos abolicionistas.

Um livro de mil oitocentos e noventa que ainda fala muito sobre desigualdade, moradia e quem paga a conta do sucesso dos outros.

É por isso que ele continua caindo nas provas.