A Redação do Enem 2026: Guia da Cartilha do Participante

A redação do ENEM segundo a Cartilha do Participante do INEP: as cinco competências, quanto vale cada uma, como a nota final é dada e o que faz a redação zerar.

Transcrição do episódio

A Cartilha do Participante da Redação do Exame Nacional do Ensino Médio de dois mil e vinte e seis, publicada pelo Inep, orienta a produção do texto dissertativo-argumentativo em prosa sobre temas sociais, científicos, culturais ou políticos.

E qual é o objetivo central que o participante precisa demonstrar nesse formato de texto?

A tarefa é defender um ponto de vista com argumentos consistentes e estruturados com coerência e coesão, além de elaborar uma proposta de intervenção social para o problema abordado.

Como funciona a dinâmica de correção para avaliar esse conjunto?

Cada redação é examinada de forma independente por pelo menos dois avaliadores graduados em Letras ou Linguística, sem que nenhum deles conheça a nota do outro.

Eles atribuem notas separadas por competência?

Sim. Cada avaliador atribui de zero a duzentos pontos em cinco competências da Matriz de Referência, totalizando até mil pontos. A nota final é a média aritmética das notas desses dois avaliadores.

E se houver uma diferença muito grande entre essas duas correções?

A cartilha considera que há discrepância quando a pontuação total difere em mais de cem pontos, ou se houver uma diferença superior a oitenta pontos em qualquer uma das competências.

O que acontece nesses casos de discrepância?

O texto é avaliado de forma independente por um terceiro corretor. A nota final passa a ser a média aritmética das duas notas totais que mais se aproximarem.

E se mesmo assim a divergência continuar?

A redação é então examinada por uma banca composta por três avaliadores, que assume a definição da nota final.

O documento também descreve critérios especiais para quem solicita atendimento especializado?

Descreve sim. Na correção de participantes surdos, com deficiência auditiva, surdocegueira ou com Transtorno do Espectro Autista, são adotados mecanismos coerentes com suas singularidades linguísticas na escrita.

Essas medidas são baseadas em alguma lei específica?

Sim, no inciso sexto do artigo trinta da Lei treze mil cento e quarenta e seis de dois mil e quinze, que estabelece a adoção de critérios de avaliação de provas escritas que considerem a singularidade linguística da pessoa com deficiência. E no caso do autismo, a Lei doze mil setecentos e sessenta e quatro de dois mil e doze dispõe que a pessoa com o transtorno é considerada pessoa com deficiência para todos os efeitos legais.

E para quem tem dislexia?

A cartilha prevê critérios que consideram as características linguísticas específicas da dislexia, observadas as normas do exame e a Lei catorze mil duzentos e cinquenta e quatro de dois mil e vinte e um.

Entendido o processo de leitura técnica. Agora, antes mesmo das notas por competência, o que leva uma redação a receber nota zero de imediato?

A folha em branco, a fuga total ao tema, o não atendimento ao tipo dissertativo-argumentativo ou a extensão de até sete linhas manuscritas, que configura texto insuficiente.

E se o estudante copiar frases da prova para tentar passar dessas sete linhas?

Não adianta. As linhas compostas total ou parcialmente por cópia da proposta ou do caderno de questões são desconsideradas da contagem de linhas escritas.

O título conta nessa extensão mínima?

O título é considerado linha escrita, mas é um elemento opcional e não recebe avaliação por competência. Porém, se tiver desenhos ou impropérios, pode anular a redação inteira.

Desenhos e assinaturas fora do lugar indicado anulam o texto. E quanto às chamadas partes deliberadamente desconectadas?

São reflexões sobre a própria prova, bilhetes para os corretores, orações, mensagens políticas ou trechos de músicas e poemas inseridos de forma pontual e desarticulada da argumentação.

Ou seja, qualquer elemento estranho que quebre de propósito o projeto de texto ou a seriedade da avaliação.

Exatamente. Quando a redação cumpre os requisitos mínimos, ela passa a ser pontuada nas cinco competências, começando pela Competência Um, que julga o domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa.

Quais são os eixos observados nessa primeira competência?

A estrutura sintática e os desvios. Para alcançar os duzentos pontos, espera-se uma estrutura sintática fluida e complexa, com orações subordinadas e intercaladas bem construídas.

E o que caracteriza uma falha na estrutura sintática das frases?

A cartilha destaca o truncamento, que é quando um ponto-final separa duas orações que deveriam compor o mesmo período, e a justaposição, que ocorre ao usar uma vírgula no lugar de um ponto-final.

E no eixo dos desvios, o que é analisado?

Regras gramaticais como concordância e regência, convenções da escrita como ortografia e acentuação, adequação vocabular e a escolha de registro, que proíbe marcas de oralidade e informalidades.

Passando para a Competência Dois, o que exatamente é medido nela?

A compreensão da proposta de redação, o respeito aos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa e a aplicação de conceitos de várias áreas do conhecimento.

Como o participante deve lidar com a proposta temática para não perder pontos?

Ele precisa atender ao recorte temático completo. A cartilha diferencia a fuga total, que zera a prova, do tangenciamento, que é abordar apenas o assunto mais geral sem focar no tema específico.

E o que acontece na nota se houver tangenciamento?

A nota fica limitada a no máximo quarenta pontos na Competência Dois e esse problema também trava as Competências Três e Cinco em no máximo quarenta pontos cada.

Um efeito em cadeia bem severo. E quanto à tipologia do texto?

O texto precisa defender uma tese com argumentos e explicações, sem virar mera exposição neutra. Se houver predominância de narração ou outro gênero, a redação recebe nota zero.

A Competência Dois também exige o repertório sociocultural. O que a cartilha define como repertório válido?

Informações, fatos, citações históricas, dados ou referências culturais legítimas que ultrapassem os textos motivadores da proposta.

O documento traz um aviso bem direto contra o que chama de repertório de bolso. O que seria isso?

São referências decoradas e genéricas, como citar frases de filósofos clássicos que servem para qualquer assunto, mas que aparecem sem uma ligação genuína com o problema específico da prova.

Como se a citação estivesse ali só para enfeitar.

Isso. Se a referência for decorada e automática, a banca a avalia como não produtiva. Para obter nota máxima, o repertório precisa ser legítimo, pertinente ao tema e produtivo na defesa da tese.

Entendi. E como isso se conecta com a Competência Três?

A Competência Três avalia o projeto de texto e a fundamentação dos argumentos, ou seja, a inteligibilidade e a estrutura profunda das ideias.

O que a cartilha quer dizer com projeto de texto?

É o planejamento prévio à escrita, perceptível pela organização estratégica dos argumentos. O leitor precisa acompanhar o raciocínio sem encontrar contradições ou ideias soltas.

E como se garante um desenvolvimento argumentativo consistente?

Explicando e desdobrando cada ponto por meio de dados, analogias, causas ou consequências, para não deixar lacunas de sentido a serem preenchidas pelo leitor.

Se a Competência Três cuida do conteúdo e da lógica profunda, qual é a função da Competência Quatro?

A Quatro avalia a superfície textual, que são os mecanismos linguísticos empregados para estruturar a argumentação e garantir a coesão.

Quais elementos concretos o estudante precisa mobilizar nessa parte?

O uso de operadores argumentativos que marcam relações de causa, adversidade, conclusão e acréscimo, além de estratégias de referenciação para retomar termos sem repetições.

E a cartilha faz alguma ressalva sobre a dosagem desses conectivos?

Faz um alerta claro: usar conectivos em excesso ou de forma artificial não garante nota alta. O importante é que estabeleçam conexões lógicas reais entre as frases e entre os parágrafos.

Chegamos então à Competência Cinco, que trata da proposta de intervenção. Qual é o papel dessa proposta?

É a apresentação de uma iniciativa concreta para intervir no problema abordado no desenvolvimento, em consonância com o projeto de texto.

O documento insiste bastante na diferença entre propor e constatar. Qual é a distinção?

Constatar é apenas registrar um fato existente ou afirmar que faltam investimentos. Propor significa projetar uma medida para o futuro, indicando uma ação prática de transformação.

Quais são as perguntas que a intervenção precisa responder para ser pontuada no nível máximo?

Ela precisa conter cinco elementos: que ação deve ser realizada, quem deve executá-la, como viabilizar essa solução, qual efeito ela busca e um detalhamento adicional de um desses itens.

E há uma regra expressa sobre os direitos humanos nessa competência?

Sim. Qualquer proposta que incite à violência, faça apologia à justiça com as próprias mãos ou desrespeite a dignidade humana recebe nota zero na Competência Cinco.

A cartilha também apresenta redações da edição anterior que tiveram bom desempenho para ilustrar esses critérios na prática, certo?

Certo. São textos sobre o tema do envelhecimento na sociedade brasileira em dois mil e vinte e cinco, destacando como os autores articularam dados, literatura e história sem recorrer a frases prontas.

E o documento fecha com uma orientação geral sobre a preparação do participante.

Na seção Leia mais, seja mais, o Inep reforça que a leitura constante de fontes variadas é a base para ampliar o vocabulário, consolidar a argumentação e enriquecer a visão de mundo.

Vale repassar os pilares essenciais que a cartilha estabelece para a prova.

Primeiro, o cumprimento rigoroso da estrutura dissertativa e do recorte temático para afastar qualquer risco de anulação ou penalidade de tangenciamento.

Em seguida, a defesa de um ponto de vista com projeto de texto planejado e fundamentado em argumentos aprofundados.

Depois, a utilização de repertório sociocultural legítimo e produtivo, evitando fórmulas decoradas e genéricas.

Somada à precisão da norma-padrão e à coesão textual equilibrada, tanto dentro dos parágrafos quanto entre eles.

E por fim, uma proposta de intervenção completa com cinco elementos articulados ao problema discutido e em respeito estrito aos direitos humanos.